terça-feira, 30 de outubro de 2012

o desespero do não conseguir.
o desespero do dia-sim-dia-não. quase tudo tentar. idealizar-alcançar.
tudo papel. só papel.
e seda.
nada voa. nada vive. nada sobrevive a esse eterno mal estar. essa agonia de não ser. de só querer. o desespero de fazer pela metade. maus resultados. protocolo indeferido do dia-a-dia.
é difícil focar sem olhar pra frente - mas eu consigo.
como não planejar? como viver de presente? como não viver o presente?
o interno eterno avesso.
é difícil sentir sem dizer - mas eu consigo.
como continuar sendo só mais um? só mais um nada que de nada vive. que de tudo aceita. que tudo permite. que tudo reclama - que nada muda - que nada vive?

Quais são as flores?
O calor do quarto é in-su-por-tável. E você continua aí, derretendo junto à parede, agarrada ao travesseiro que nem conforto traz.

o desespero instala-se em segurança, calmo. habita junto ao corpo, vira detalhe ao espelho, passa despercebido. vira pó. vira vontades mal pensadas. vira propostas mal formuladas. vira prazos não alcançados, peso enraizado. verso mal escrito, texto mal ensaiado.


o desespero me apatiza.



sábado, 6 de outubro de 2012

pelos corredores

dia nublado.
as cores voltam a bater na janela. novas cores. todas as cores. todas as cores de um dia bom.
acordo e há um silêncio enorme em casa: não estou só - teu gesto recente e calmo persiste aqui, traz o calor e a certeza que preciso.
Certeza. certeza que exclui o tempo, os porquês, certeza de que vamos crescer uma coisa boa juntas. certeza de noites bem dormidas mesmo que por poucas horas.
Pergunto-me se deveria mesmo ter esperado "baixar a poeira" se já me encontro de pé. E não espero. Te senti de longe, não quis esperar. não tinha que.
sentir o real a cada instante.
a ausências dos jogos todos. as palavras bem ditas. todas as verdades.


O cenário é o mesmo.
O cenário é o mesmo, mas essa história não se encontra mais no plano de fundo daqueles corredores. Não somos mais meros figurantes doutra cena: o início do segundo ato. o encontro da procura mútua. Como isso aconteceu? como o encontro aconteceu? você agora está aqui todos os dias de repente. de repentemente. você cresce você cresce e eu não quero que pare. não exite avenca. não espero nada, mas as janelas e portas e telhado já estão abertos. não há texto, mas não sinto o desespero do improviso. é natural. é teatro-vida. não há atuação. nem interpretação. é leve MEU DEUS DO CÉU é leve. você me vê. descreve minhas linhas sem saber. e-xa-ta-men-te do jeito. do jeito pensado. do jeito querido. do jeito premeditado. do jeito inflamado. do jeito explosivo. do jeito mundo-vida-furacão-tsunami. você sabe quase sem querer, confusa e numa simplicidade suprema. e-xa-ta-mente do jeito.


me ferve o líquido pulsátil. me molha o corpo inteiro em formigamento. me traz a carne à vida, a mente ao vício. me faz envergonhar pelas minhas idéias infantis, pelo descobrimento do mundo novo. me mostra tua maturidade elegante em cada olhar, em cada vírgula, em cada quase-silêncio. meu mundo inteiro mudou de cor.




e de traços.



Posso te dizer das (não muitas) paixões que, por vezes, me perdi entre os degraus. Idealizei e quis por perto para humanizar. noutras, humanizadas, não quis ver e desenhei altares. Mas agora, tu, tu chegaste assim. Chegaste inteira, viva, tocável, tão humana quanto Eu,
andando o mesmo caminho, buscando por entre vírgulas e acasos
um não motivo
uma luz
um viver








em paz.